sábado, 9 de maio de 2020

VIDE, BARATO, POR SI SÓS, SIC:

--- Vide. Essa expressão é usada amiúde, como imperativo do verbo ver. Ex.: Vide rodapé; vide página 13 etc. Pergunto se o correto não seria vede e em que hipótese devemos usar o vide acertadamente. Aparecido Ladislau Favini, Campo Mourão/PR

Usa-se vide quando se quer remeter alguém a um livro, capítulo, página ou trecho diferente do que se está vendo. Abrevia-se v. ou V. – inicial maiúscula quando no início da frase.


O imperativo do verbo ver de fato é vede, que se refere a vós, pronome raro no Brasil, o que talvez explique a preferência pelo latim “vide”. Melhor seria usar ver ou veja, por exemplo:

Veja pág. 10.
Ver bula.
Ver referência no final do capítulo.


O #BCCCV esclarece:


--- Gostaria de saber se a palavra barato, referente a preço, tem feminino; por exemplo, a roupa é barata. Wagner de Jesus Baptista, São Paulo/SP


O adjetivo barato tem o feminino barata, sim. E tem plural. Ou seja, flexiona em número e gênero quando qualifica um substantivo na sua proximidade [exemplos 1 e 2] ou em frases com verbos de ligação, dos quais ser e estar são os principais [exemplos 3 a 6]. O mesmo vale para o adjetivo “caro”:


1) Eles levam uma vida barata.

2) Encontraram diversões baratas na cidade.

3) A roupa é muito barata nos nossos estabelecimentos.

4) Os pãezinhos estão cada vez mais caros, quando deviam ser baratos.

5) As viagens internacionais ficaram mais caras com o aumento do dólar, o que não significa que as nacionais estejam mais baratas.

6) Com a redução do IPI, os carros podem ficar mais baratos.


Barato só não flexiona (permanece no masculino singular) quando é usado adverbialmente, isto é, junto com verbos que não sejam de ligação, como custar e sair:


A roupa custa barato, mas os móveis custam caro.

Os tapetes saíram barato; as aulas afinal saíram caro.

O candidato promete que os itens da cesta básica custarão mais barato.


--- A expressão “por si só” é usada sempre no singular ou deve também ser flexionada no plural? Por exemplo: as provas apresentadas, por si só, não foram suficientes para caracterizar o dano. Caroline de Souza, Florianópolis/SC


Deve-se pluralizar a expressão de acordo com o substantivo em referência. Quando reforça o pronome si (que serve para singular e plural), a palavra  tem valor adjetivo e é portanto flexionável. É como se disséssemos “a ação por si mesma, as provas por si mesmas, os fatos por si próprios”. Alguns exemplos:


Os fatos por si sós recomendam a punição do infrator.

Essas medidas por si sós resolverão o caso.

As provas apresentadas, por si sós, não são suficientes para caracterizar o dano.


--- O que significa a expressão (sic) presente em diversos artigos de jornais e revistas? D. P. B., Rio de Janeiro/RJ


O termo sic – advérbio latino que quer dizer “assim” – é usado entre parênteses depois de qualquer palavra ou frase que contenha um erro gramatical ou um dito absurdo que o redator quer deixar claro que não é dele, mas sim da pessoa que falou ou escreveu aquilo. Em resumo: ao colocar (sic), você mostra ao leitor que é assim mesmo que estava no original, por mais errado ou estranho que pareça. Mas veja bem, não se deve usar (sic) a torto e a direito. Ao transcrever um trecho que contenha evidentes lapsos de datilografia ou digitação, é melhor consertá-los. A propósito, e para deixar bem claro: somente erros de ortografia podem ser alterados para conserto (e os de grafia antiga para atualização). Se o autor cometeu muitos erros de outra natureza, é preferível não citá-lo, não é mesmo?


Maria Tereza de Queiroz Piacentini

sexta-feira, 8 de maio de 2020

VERBOS: CONHECER, PISAR, AVISAR

--- Nos tribunais, é usual dizer: “não conhecer do recurso” no sentido de não admitir, não ser recebido para discussão do mérito. Pode ocorrer por ser inadequado, intempestivo, ou porque não foi recolhida a quantia do denominado “preparo”. Comenta-se que no STJ ocorreu grande polêmica a respeito dessa expressão e por isso formulo a consulta: a) não conhecer do ou o recurso? T.N.V., Florianópolis/SC

O verbo conhecer, nos seus significados mais comuns de “saber, ter ideia, informação, consciência ou experiência, apreciar, conviver com”, é transitivo direto, ou seja, é usado sem nenhuma preposição; neste caso o pronome objeto é o/a, e não lhe:

Conheço bem os seus defeitos.

No ano passado conhecemos o sul da Espanha.

Já não a conheço?

O desembargador conhece Português como poucos.

O #BCCCV esclarece:


Vou assistir, em Porto Alegre, à conferência de Maffesoli, pois eu conheci em Paris há dois anos.

É igualmente possível usar o verbo conhecer como transitivo indireto, preposicionado – porém com o sentido mais restrito de “informar-se, procurar saber”:

Precisamos conhecer das condições de venda do imóvel.

E também, na área jurídica, usa-se “conhecer de” significando “ter (juiz ou tribunal) competência para intervir num processo; tomar conhecimento de uma causa ou recurso e dar-se competente para julgá-la”, conforme palavras dos dicionários; ou “não conhecer de” com o sentido explicitado pelo leitor catarinense:

O juiz decidiu conhecer do pedido.

O Supremo não conheceu do recurso.

Nos termos do voto do relator, à unanimidade, conheceram do recurso para negar-lhe provimento.

--- Qual a expressão correta: Não pise na grama / a grama / à grama. Esta última me pareceu bastante estranha, mas foi vista no jardim de um órgão público federal. Ednaldo João Ariane Silva, Salvador/BA

O verbo pisar, no sentido de “pôr os pés no chão, andar, caminhar”, pode ser tanto transitivo direto quanto indireto, com a preposição EM. Isso significa que a prep. A, no caso de “à grama”, foi mal empregada. É possível dizer:

Pisar a grama ou Pisar na grama.

Pisar as flores.

Pisar nos amores-perfeitos.

Pisar em ovos.

Pisar nos calos.

--- Qual a regência do verbo avisar? Verônica Hirata, Cuiabá/MT

A construção originária é avisar alguém (de alguma coisa):

É bom avisá-la do perigo.

Bem que eu a avisei, Marcela.

Avisamos os clientes da mudança de endereço.

Não saia sem avisar seus pais.

Ninguém me avisou disso.

O chefe avisou os funcionários de que os documentos estavam prontos.

Entretanto, já tem tradição na língua o uso de avisar com objeto indireto de pessoa e direto de coisa, por analogia com os verbos dizer e comunicar

Avisamos aos nossos clientes que vamos atendê-los em novo endereço.

Eu lhe avisei a data da reunião.

Também são usadas as preposições para e sobre:

Avisei os amigos sobre os problemas pendentes.

O médico avisou o menino para largar o cigarro.

Maria Tereza de Queiroz Piacentini

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

VÍRGULA:

-DATA E LOCAL EM INÍCIO DE FRASE - VÍRGULA OU NÃO


-- No tratamento das datas em textos é certo virgular, digo: é sempre obrigatório? Exemplo: Em 5/6/2002(,) enviei os documentos para análise. Eu pessoalmente acredito que não cabe vírgula, mas há quem assegure ser necessário colocá-las sempre. I.C.R.G., João Pessoa/PB

É certo, sim, virgular, mas não obrigatoriamente. Não só as datas, mas também o local. Enfim, quando iniciam a frase, os adjuntos de tempo e lugar podem ou não vir separados por uma vírgula – depende do redator e das circunstâncias (tipo de frase, estilo, gosto, extensão do adjunto). Recolhi nas revistas Istoé, Veja, Exame e Época exemplos das duas modalidades de uso. 

O #BCCCV esclarece: 


COM VÍRGULA:

Em 1994, o primeiro ocidental a rever as relíquias foi o arqueólogo Manfred Korfmann.

No dia 30 de maio de 2001, o diretor foi agredido pelo aluno R.S.C.

Nos anos 60, os sócios dos Diários Associados encomendaram ao pintor paulistano Wesley Duke Lee um quadro de Chatô.

Às 19h30 de 12 de abril de 1972, o dirigente comunista João Amazonas embarcaria num ônibus na rodoviária de Anápolis (GO) rumo a Marabá (PA).

No Brasil, a empresa fechou alguns contratos importantes durante o primeiro trimestre.

Nos últimos dias, o governo abriu o cofre e passou a liberar verbas para emendas dos parlamentares num ritmo muito superior ao registrado desde o início do ano.

Até o fim de junho, todos os internautas poderão navegar livremente pelas páginas da revista na internet. [...] Diariamente, cerca de 30.000 pessoas acessam a revista online. Em abril, o site bateu seu recorde de audiência.

Em Brasília, as demissões de ministros costumam ficar em duas categorias. [...] Na terça, o ministro convocou entrevista coletiva. No teatro, Bezerra explicou que estava saindo porque não teve solidariedade. Antes, o presidente recebera Bezerra, ouvira suas explicações, mas não o demitiu. [...] Logo após, o governo aplicou ao ex-ministro um castigo público.

Atualmente, as vendas de cosméticos movimentam por ali 1,5 bilhão de dólares ao ano.

SEM VÍRGULA:

Em 1985 ocorreu novo surto de sarampo.

Em 21 de julho de 1969 o Homem pisou na Lua.

No ano de 1893 o então Governador do Estado rompe com o Governo Republicano.

Nos próximos dias  os brasileiros assistirão a um embate jurídico de peso.

No Brasil foi criado recentemente um ranking que avalia as companhias de acordo com seu desempenho no campo da ética dos negócios.

Na mesma cidade encontra-se o expoente máximo da modernidade.

Há um ano fez um piercing no umbigo, que quase matou sua mãe de susto.

No ano passado me convidaram para ir a Fortaleza.

A cada dia que passa só aumenta a curiosidade do país sobre a bolada de R$ 1,3 milhão.

E nossos escritores, como usam esse tipo de adjunto? É o que veremos na próxima coluna.

Maria Tereza de Queiroz Piacentini

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

ESTADA ou ESTADIA etc.

--- A palavra correta é estada ou estadia quando você quer dizer a permanência em um hotel ou outro lugar? Maria Helena Prezoto Ferrari, São Paulo/SP

Tanto faz. Já se foi o tempo em que era rigorosa a distinção entre os dois termos: estadia era só para navio, estada para os demais casos. Mas, até por uma questão de eufonia, passou-se a usar estadia para qualquer tipo de permanência, de carro em estacionamento a pessoa em hotel. Finalmente, eis que o dicionário Houaiss avaliza o uso corrente:

ESTADA é o ato de estar, de permanecer em algum lugar:

Durante a sua estada no poder, o Presidente fez várias viagens ao exterior.

Sua estada na ilha foi gratificante, disse ele.

Consideramos nossa estada na Inglaterra muito proveitosa em termos culturais.

ESTADIA significa “permanência, estada por tempo determinado”; ou período de tempo autorizado de um navio mercante num porto, o mesmo que estalia. Exemplos:

A Secretaria a Saúde vai custear sua estadia em Curitiba durante o curso.

estadia no campo deixou o pessoal mais relaxado.

Um dos momentos mais emocionantes da estadia do cantor em Baltimore foi quando ele viu o vídeo de um show que Leonardo fez sozinho em Santa Catarina.

--- Há vários anos, tenho tentado, através de leitura, indagações e consultas variadas, saber o que significam as letras de SPA. Um sem-número de pessoas pronunciam e repetem spa's e nunca mencionam o significado das letras. Vocês poderiam desvendar-me esse mistério? Amilton de Moraes Varella, São Paulo/SP


O #BCCCV informa:

SPA é o nome que se dá a uma estância hidromineral, hotel distante das cidades ou grande estabelecimento comercial que oferece um tratamento integrado de saúde e beleza. Essa designação é comumente associada à cidade de Spa, antiga e famosa estância hidromineral localizada no leste da Bélgica. As três letras são as iniciais da expressão latina “Salutae Per Aquam”, que quer dizer “saúde ou cura pela água”. Observe o plural sem apóstrofo:

Fagundes conseguiu voltar à boa forma depois da permanência de três dias num spa.

Simon & Cia. pretende investir na construção de dois spas em São Paulo.

--- Gostaria de saber se a palavra yoga ou ioga é usada no feminino ou masculino? Devo acentuá-la (yôga) como já vi? E qual a pronúncia correta? Adroaldo de Andrade, São José/SC 

Em português a palavra é feminina e escrita com i. Sua pronúncia pode ser aberta /ióga/, pela nossa tendência a pronunciar o ó aberto, ou fechada /iôga/, como sabe todo bom praticante iogue, por causa de sua origem no sânscrito, língua em que não ocorre o som aberto ó. Também é a etimologia que explica a grafia com e o uso de o yoga, pois as palavras sânscritas terminadas em a geralmente pertencem ao gênero masculino.

Resumindo: em português brasileiro se diz a ioga; em “português-sânscrito”, o yoga (sem necessidade de se colocar o acento circunflexo informativo da pronúncia).

Ioga quer dizer “união”. Em sânscrito, yoga era palavra também utilizada para designar a canga ou jugo de madeira usado para prender uma junta de bois. Daí o significado de união: da natureza com o Espírito, do humano com o Absoluto, da alma com Deus.


Maria Tereza de Queiroz Piacentini

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

GERUNDISMO E GERÚNDIO:

Juro que não tinha escutado o tal gerundismo até a véspera do feriado de 1º de maio , motivo pelo qual eu ainda não havia tratado do assunto nesta página. Só ouvindo para crer.
O #BCCCV esclarece:


Toca o telefone: era um rapaz muito simpático, da Embratel, a fazer novo cadastramento do proprietário daquela linha telefônica. Tentei me escapar dizendo que estava no nome do meu marido, mas fui “fisgada” quando ele se saiu com esta:

– A senhora pode estar respondendo a duas ou três perguntas? Eu vou estar confirmando os dados... blablablá... Nossa empresa vai estar lhe informando blablablá... A senhora vai estar pagando diretamente em conta corrente...

– Espera aí, moço. Será que não dava para fazer algumas alterações nesse texto que você acaba de ler?

– Como assim?? [surpreso e assustado]

– É o seguinte [me identifiquei melhor e...]: em vez de usar o verbo estar com o gerúndio, por exemplo “estar respondendo”, você vai direto para o verbo principal: “responder”.

– Ah, eu uso o presente...

– Não é bem o presente, é o infinitivo. Assim: em vez de dizer “pode estar respondendo”, você diz pode responder; “vou estar confirmando” fica vou confirmar; “vai estar lhe informando” – vai lhe informar; “vai estar pagando” – vai pagar, e assim por diante.

– Está bem. Então posso estar continuando... ops!... pos-so con-ti-nu-ar [enfático] a mensagem?

– Vamos lá.

– A senhora vai... re-ce-ber em seu domicílio...

Só não perguntei ao rapaz qual seu nome. Foi pena – eu poderia sugerir à empresa um melhor aproveitamento do funcionário, por sua disposição em aprender tão rapidamente a lição. Quanto a mim, cairia bem um descontinho nas ligações, pela aula à distância... via Embratel.

Isso não quer dizer que o gerúndio seja abominável.  Pelo contrário: ele pode e deve ser usado para expressar uma ação em curso ou uma ação simultânea a outra, ou para exprimir a ideia de progressão indefinida. Combinado com os auxiliares estar, andar, ir, vir, o gerúndio marca uma ação durativa, com aspectos diferenciados:

          1) com estar, o momento é rigoroso:
               Está havendo, hoje em dia, um certo abuso...
               Os preços estão subindo todos os dias.
               O país está entrando numa crise sem precedentes.
 
          2) com andar, predomina a ideia de intensidade ou movimento reiterado:
               Andei buscando uma saída para a crise.
               Andaram falando mal de ti.

          3) com ir, a ação durativa se realiza progressivamente:
               O tempo foi passando e nada de solução.
               Aos poucos ela vai ganhando a confiança do patrão.

          4) com vir, a ação se desenvolve gradualmente em direção à época ou ao lugar em que nos encontramos:
               O livro não registra como tal expressão vem sendo usada pelos brasileiros.
               A noite vai chegando de mansinho.

Maria Tereza de Queiroz Piacentini 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

LOCUÇÕES VERBAIS:

-- Gostaria de saber qual o uso correto do verbo ser: Os débitos devem ser OU devem serem corrigidos. A.S.A., São Paulo/SP

--- Qual é a forma correta: Os compromissos não podem deixar de ser OU não podem deixar de serem cumpridos.  Viviane, São Paulo/SP

Quando temos uma sequência de dois ou mais verbos referidos a um mesmo sujeito, somente o primeiro deles faz a concordância com o sujeito, ou seja, só ele flexiona, só ele é conjugado. Como nas frases acima o verbo ser é o último da sequência – o que significa que é o verbo principal –, ele permanece inalterado, não flexiona:

Os débitos devem ser corrigidos.

Os compromissos não podem deixar de ser cumpridos.
O #BCCCV esclarece:


Temos aí uma locução verbal, que é o conjunto formado de verbo auxiliar mais verbo principal (no particípio, gerúndio ou infinitivo). O auxiliar exprime uma ideia acessória e indica o modo, tempo, pessoa e número do sujeito. O principal expressa a verdadeira ação ou processo verbal.

Para atender melhor às duas consultas, vamos ver apenas as locuções formadas com o infinitivo, que se compõem com dois tipos de verbo auxiliar:

1) determinam mais acuradamente os aspectos da ação verbal: costumar, começar a, andar a, continuar a, pôr-se a, vir (a), parar de, deixar de etc.

As clientes costumam se arrumar no próprio ateliê.

Continuam a estudar coisas desnecessárias.

Sua prisão veio a ser transformada num trunfo valioso para o governo.
 
2) exprimem o modo como se realiza ou deixa de se realizar a ação verbal: poder, dever, haver de, ter que/de, tornar a, chegar a, precisar, querer, desejar, buscar, conseguir, tentar etc.

Vocês querem ser milionários?

Por motivo de justiça, devemos assinalar que há políticos sérios e honestos.

A sociedade teve que se confrontar com cenas explícitas de transgressão à lei, como as exibidas na Fazenda Córrego da Ponte.

Hei de ser respeitado até pelos adversários.

Acontece que, para poderem ser aplicados, os princípios não precisam estar previstos nos textos normativos.

Líderes do MST chegaram a ser recebidos no Planalto pelo chefe da nação.

--- Tenho dúvidas em relação à colocação de vim e vir. Ex: Ele tem obrigação de vim OU de vir amanhã. R.G., Rio de Janeiro/RJ

Tornou-se um cacoete de muitos brasileiros essa má pronúncia do infinitivo VIR, principalmente quando, numa locução verbal, há aproximação de sons nasais: *Eles podem vim, devem vim, vão vim... Mas com algum esforço é possível começar a acertar essa pronúncia. Orientação:

1) use o infinitivo VIR depois da preposição: Ele tem a obrigação de vir; tem prazer em vir a nossa casa; fez de tudo para vir; eles têm motivos para não vir aqui.

2) use VIR numa locução de verbo auxiliar + infinitivo:  Podem vir! Eles devem vir, vão vir, têm de vir.

3) use VIM, sozinho, quando quiser expressar o passado (pretérito perfeito) do verbo vir na primeira pessoa:  Eu vim de casa há pouco, vim correndo.

Maria Tereza de Queiroz Piacentini 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

INFINITIVO:

ORACIONAL + VER, DAR, LER, ESTAR

--- Qual a frase certa: O correto é dizer ou O correto é se dizer? CMAB, Ouro Preto/MG

Nesse caso não use o pronome "se", pois ele aí não tem nenhuma função sintática; não é caso de voz passiva nem de sujeito indeterminado. O sujeito dessa oração é o infinitivo [dizer é o correto = o correto é dizer]. Outros exemplos: 

O mais importante é ter amigos. [e não: “é ter-se amigos”]

É bom viajar.

Não é saudável fumar.     

É preciso viver com fé.

O #BCCCV esclarece:


O infinitivo só vem acompanhado do pronome [me, te, se, nos] quando é verbo pronominal, como queixar-se, arrepender-se, preocupar-se e outros:

O mais importante é não se arrepender do que passou.

O correto é nos preocuparmos com os outros.

Não é bom queixar-se a toda hora.

--- Gostaria de saber como usar as formas ver/vê; dar/dá; ler/lê; estar/está. Ana Paula Campos, Belém/PA

--- Quando se deve escrever está ou estar? J.R.S., Itabuna/BA

Se existe problema em distinguir ESTÁ de ESTAR ou VER de VÊ, a primeira causa é a nossa pronúncia. Acontece que no mais das vezes, ao falar descompromissadamente, “comemos” o final do infinitivo: *vou vê isso, *é bom  isso logo, *vou  uma olhada, *você vai ficá linda, *podes me fazê um favor?, *não tem jeito de gostá dela, *vamo(s) vendê a casa, *quero  o jornal agora, *preciso está lá ao meio-dia, *é melhor falá com ele...

O segundo fato é que essa pronúncia do infinitivo sem o r fica igual à pronúncia da 3ª pessoa do presente do indicativo de alguns verbos como ver, ler, dar estar: ele vê, ela lê, você dá, a senhora está. Já não se faz confusão, no entanto, com centenas de outros verbos, como por exemplo gostar, falar, vender, cumprir, porque eles mudam o acento no presente do indicativo, ficando paroxítonos: gosta, fala, vende, cumpre.

Assim sendo, o correto pela norma culta é escrever e pronunciar o r quando o verbo está no infinitivo e principalmente quando usado com outros verbos, no que se chama de locução verbal:

Vou ver isso. É bom ver isso logo.

Vou dar uma olhada.

Você vai ficar linda.

Podes me fazer um favor?

Não tem jeito de gostar dela.

Vamos vender a casa.

Quero ler o jornal agora.

Preciso estar lá ao meio-dia.

É melhor falar com ele.

E devemos usar o acento gráfico quando empregamos os verbos ver, dar, ler estar na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo, caso em que ele estará sozinho, sem outros verbos de apoio:

Ela  tudo com bons olhos.

Ana Maria  suas receitas para todos.

Você está bem?

Ele  dois livros por mês.

Maria Tereza de Queiroz Piacentini