--- Hora extra possui hífen ou não? N. M., Rio de Janeiro/RJ
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini
Estudo da Língua Portuguesa com PREPARAÇÃO VESTIBULAR e outros CONCURSOS. O BCCCV - [Batalhão de Cidadania e Civilidade Contra a Violência] existe para trazer aos jovens uma forma prática e dinâmica de estudar a Língua Pátria: Amando-a; USANDO-A CORRETAMENTE NA ESCRITA E NA FALA - tudo sustentavelmente. RECICLANDO-A nos seus cinco níveis de Linguagem.
--- Hora extra possui hífen ou não? N. M., Rio de Janeiro/RJ
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini
TENDÊNCIA + VERBO VIVER:
-- Minha dúvida diz respeito ao uso da preposição de em situações como “a tendência é de”. Tenho encontrado frases ora com a preposição, ora sem, como exemplifico a seguir. Maria Laís Pestana, São Paulo/SP
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini
--- Gostaria de saber em quais casos, efetivamente, deve-se empregar o gerúndio. Rosemary Toffoli, São Paulo/SP
É impossível ver todos os tipos de emprego numa só coluna, Rosemary. Mas há duas semanas tivemos a oportunidade de analisar e estudar um caso, aquele em que o gerúndio precedido de vírgula dá ideia de adição em substituição ao conectivo “e”. Repito um exemplo: Ligou para o celular de D. Marisa, no sábado, lamentando o sequestro. No domingo voltou a falar com Lula, marcando uma conversa pessoal. Isso equivaleria a dizer: “Ligou para o celular de D. Marisa, no sábado, e lamentou o sequestro. No domingo voltou a falar com Lula e marcou uma conversa pessoal”.
Vejamos agora o uso do gerúndio sozinho (sem verbo auxiliar) numa situação de oração reduzida adverbial de modo depois da oração principal. Neste caso específico, quando o gerúndio denota MEIO, MODO ou INSTRUMENTO – respondendo, portanto, à pergunta como? –, não se usa a vírgula, pois então se trata de uma oração subordinada na sua ordem normal, que é depois da principal. [É importante observar que no parágrafo anterior se falou de gerúndio que une orações coordenadas.] Eis alguns exemplos de orações reduzidas modais de gerúndio (sem a vírgula, portanto):
O presidente subiu a rampa correndo.
A cigarra passou a vida cantando.
Mandou pintar o edifício empregando mão de obra local.
Dewey já comentava a importância de “aprender fazendo”.
A criança constrói sua cultura brincando.
Finda a sessão, a ré saiu chorando da sala.
Esse fato contribui ainda mais para afastá-lo da sua missão de eliminar conflitos realizando a justiça.
O Direito deve retomar o seu papel de instrumento de ordenação respondendo às convenções morais.
Em 1831 um empresário decidiu minorar a falta de transportes públicos de Nova York encomendando um veículo para 12 pessoas a um fabricante de carruagens.
Em Portugal, é bom que se diga, o gerúndio é desprezado nesse tipo de frase. Lá se costuma empregar a oração reduzida de infinitivo, que nós brasileiros também usamos (mas não tanto): Subiu a rampa a correr / passou a vida a cantar / a criança constrói sua cultura a brincar / saiu da sala a chorar e assim por diante.
Podemos afirmar também que a ausência da vírgula diante do gerúndio (ou oração gerundial) é a regra em qualquer tipo de oração adverbial na sua ordem habitual, isto é, depois da oração principal, não anteposta nem intercalada. Constata-se esse uso mais frequentemente quando o gerúndio equivale a uma oração adverbial final, ou seja, aquela que exprime uma finalidade (poderíamos dizer que responde à pergunta para quê?):
Telefonou para sua mulher dizendo que ia jantar fora.
O BC emitiu nota oficial desmentindo os boatos especulativos a respeito dos juros.
Ele renunciou objetivando facilitar as investigações.
A imobiliária deve enviar e-mail ao locador avisando-o de que fez despesas em seu favor.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini
PROATIVO, INSERTO, DILAÇÃO E PATROL
--- Como devemos escrever: proativo ou pró-ativo? Alexandra Pontes, Salvador/BA
Escrevia-se apenas sem hífen: proativo; mas a edição de 2009 do VOLP (Vocabulário Ortográfico, oficial) também registra pró-ativo. O termo vem do inglês “pro-active/proactive” e se refere a algo ou alguém que antecipa futuros problemas, necessidades ou mudanças, que seja capaz de mudar eventos em vez de reagir a eles, fazendo com que as coisas aconteçam; é ser ágil e competente, portanto. Exemplos:
Estamos sendo desafiados a assumir uma postura proativa frente às novas tecnologias.
A frequente lentidão no processo de implantação dos centros regionais de informática obriga-os a estabelecer uma dinâmica proativa na busca de parceria com empresas que têm recursos para investir em programas sociais.
O adjetivo proativo também pode ser transformado em advérbio:
O diretor da empresa reagiu proativamente em relação às demandas trabalhistas de seus empregados.
--- Gostaria de saber a forma correta de escrever: baixela em aço inox ou baixela de aço inox? Mônica Tagliari, São Paulo/SP
Diz-se “baixela de aço inox”, assim como se diz panela de ferro, colher de madeira, anel de ouro, pois “de” é a preposição que se usa para exprimir a qualidade de um ser.
--- Qual a diferença entre inserto/incerto e dilação/dilatação? E.G.O., Porto Velho/RO
Inserto = inserido. Incerto = duvidoso. Exemplo:
Duas das sugestões insertas nos anais do simpósio foram trazidas pelo nosso grupo.
Dilação = prorrogação, adiamento; o mesmo que dilatação:
Pedimos a dilação do prazo para que pudéssemos reunir o dinheiro necessário.
O termo dilatação também se refere, por outro lado, ao aumento de dimensões ou de volume, ampliação, propagação.
--- A palavra certa é: patrol ou patrola? Itatiana Leite dos Santos, Goiânia/GO
Os dicionários registram patrol e patrola como palavras sinônimas e que têm o mesmo significado de niveladora: “máquina de terraplenagem munida de lâmina e utilizada para regularizar o terreno, abrir valetas e executar pequenas escavações, podendo ser rebocada ou de autopropulsão; patrol, patrola, plaina, aplanadora”.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini
Oswaldo Onofre, de Recife/PE, solicita orientação para o dilema das iniciais maiúsculas em palavras compostas do tipo Pró-Reitoria (ou Pró-reitoria?). E Márcio S. Fontes, de Florianópolis/SC, pergunta se deve escrever Decreto-lei ou Decreto-Lei.
Como já disse outras vezes, o emprego das iniciais maiúsculas não ficou claro no Formulário ortográfico de 1943 (oficial). Não se tratou ali (e tampouco no Acordo Ortográfico 2009) das iniciais em nomes compostos. O que tem servido de guia para os gramáticos é o exemplo de Capitão-de-Mar-e-Guerra, que aparece na Observação do item 14° e que faz supor devam todos os elementos de um nome próprio iniciar com caixa-alta. Lá no 12°, porém, na exemplificação de documentos oficiais, consta: “A lei de 13 de maio, o Decreto-lei nº 292, o Decreto nº 20.108 [...]”, ao que Celso Luft objeta em nota de rodapé no seu Grande Manual de Ortografia Globo (1985:260): “Nas composições hifenizadas, os elementos gozam de independência gráfica: Decreto-Lei, com L maiúsculo”.
O bom senso nos leva à seguinte orientação: usar todas as iniciais maiúsculas quando a palavra composta faz parte de um nome próprio, qual seja, título de obra, nome de repartição, escola, instituição, cargo ou evento, datas ou fatos históricos. Vejamos alguns exemplos:
Marcaram entrevista com o professor doutor Ari na Pró-Reitoria de Ensino e Pesquisa.
A homenagem foi feita pela Organização Pan-Americana de Saúde, braço da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Representantes de governo e do setor agropecuário reuniram-se em Santiago do Chile para a 30ª Reunião da Comissão Sul-Americana de Luta Contra a Febre Aftosa.
Soros virou o único beneficiário daquilo que os ingleses chamaram de Quarta-Feira Negra.
Como periódico do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina, a Revista Linhas procura disseminar conhecimento consistente e socialmente relevante.
Quando é que se pode ver, então, a segunda palavra desses compostos em inicial minúscula? Quando não fazem parte de um nome próprio e a primeira palavra tem de ser forçosamente grafada com maiúscula, caso do início de frase:
Couve-flor faz bem à saúde.
Pós-graduação agora? Nem pensar.
Quarta-feira estaremos aí.
Sul-americanos são discriminados na fronteira.
E o decreto-lei, como é que fica? A gosto do redator: se considerar que o pessoal de 1943 cometeu um engano (entre os vários detectados) nas suas instruções, e além disso acha mais estético seguir o padrão acima explicitado, escreverá Decreto-Lei. Se entender que aí não se trata exatamente de um “nome próprio”, mas que o D maiúsculo é mero destaque (o que não deixa de ser um bom argumento), optará por Decreto-lei.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini
Sylvio Bertoli quer saber se não cabe também o verbo no plural nas frases abaixo, que foram objeto da coluna “Falando de números e numerais” publicada há seis semanas (NTL 155). Dizia eu então:
Há uma concordância especial para o verbo ser quando o sujeito indica preço, peso, porção, quantidade, medida. Neste caso o verbo passa a concordar com as expressões muito, pouco, o suficiente, o mínimo, demais etc., permanecendo então na terceira pessoa do singular:
Sete anos de noivado foi muito.
Dez metros de fita é pouquíssimo.
Cem reais é o suficiente.
Seis é o mínimo desejável.
Um é pouco, dois é bom, três é demais.
Todavia, existe uma concordância do verbo ser no plural. Isso se dá quando o substantivo, núcleo do sujeito, está determinado por um artigo. Veja então a diferença:
Os sete anos de noivado de Abel e Marta foram demais, foram um absurdo.
Os seis elementos são desejáveis.
Os dez metros de fita que comprei foram insuficientes.
Os cem reais que me deste foram suficientes.
--- O que me leva a este contato é uma dúvida que me surgiu após ler uma edição do jornal A Gazeta. A manchete principal saiu assim: Quem poderão ser os candidatos locais nas próximas eleições? Gostaria de saber se está correto este título e por quê. Fernando.
A manchete está correta, embora chegue a soar estranha, pois não é muito comum a utilização do verbo ser com um verbo auxiliar, numa locução verbal [poderão ser], junto do pronome interrogativo quem. Normalmente este pronome leva o verbo para o singular:
Quem será?
Quem sabe quem foi o autor da manchete?
Quem fez isso?
Todavia, em orações com o verbo ser, o pronome quem pode servir de predicativo a um sujeito no plural. Isso quer dizer que o verbo vai fazer a concordância com o sujeito que estiver no plural:
Quem são eles? Quem somos nós?
Quem serão os candidatos locais nas próximas eleições?
Quem foram os malucos que atacaram o presidente?
"Sabem, acaso, os vultos, quem vão sendo?" (Cecília Meireles)
CONCORDÂNCIA NO FEMININO
--- Queira esclarecer: a gerente/a auxiliar administrativo ou a gerente/a auxiliar administrativa. Luiz Gonzaga Soares, Rio de Janeiro/RJ
Trata-se agora da flexão do adjetivo que acompanha os substantivos comuns-de-dois, ou comuns de dois gêneros. “Administrativo” é um adjetivo, variável em gênero e número. Consequentemente, deve concordar com o substantivo feminino que se refere a uma mulher: a gerente administrativa, a auxiliar administrativa. Dizer *a gerente administrativo seria tão anômalo quanto *a juíza adjunto ou *a diretora-secretário. Outros bons exemplos de cargos femininos:
a secretária executiva
a secretária adjunta
a presidente adjunta
a chefe auxiliar
a assessora especial
a consultora geral
a juíza substituta
a gerente financeira
a auxiliar técnica
a técnica administrativa
a diretora-secretária
a diretora-presidente
a ministra-chefe.
Enfim, se uma mulher ocupa o cargo de prefeito ou de técnico judiciário, por exemplo, ela se torna prefeita, ou técnica judiciária, e assim por diante.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini
EM QUE PESE A/À + SOLUÇÃO DE CONTINUIDADE
Roberto de Carvalho, de Salvador/BA, costumava escrever assim: “em que pese o fato, em que pesem as circunstâncias”, mas surpreendeu-se ao encontrar numa publicação a locução prepositiva: “em que pese às dificuldades e em que pese ao temporal”.
Assim, “sem solução de continuidade” seria o mesmo que “sem interrupção da continuidade”, o que quer dizer “sem descontinuidade”. Quando quer se expressar a vontade de que não haja interrupção de um trabalho, pode-se escrever: “Esperamos que não haja solução de continuidade” .
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini