quarta-feira, 23 de outubro de 2019

REGÊNCIA: AGRADAR, CONSPIRAR, GOSTAR, VENCER.

--- Consulta: regência do verbo agradar, haja vista que tenho encontrado divergência nas gramáticas. Pedro Tenório Sousa, Maceió/AL

Divergência, neste caso, significa que há multiplicidade de uso. “A regência, como tudo na língua, a pronúncia, a acentuação, a significação, etc., não é imutável. Cada época tem sua regência, de acordo com o sentimento do povo, o qual varia, conforme as condições novas da vida”, já dizia o filólogo e dicionarista Antenor Nascentes em 1960.

O #BCCCV esclarece:

 

agradar é um dos verbos que Celso Luft usa justamente para exemplificar a evolução da regência verbal pela alteração dos traços semânticos ou de significado: “Agradar a alguém, agradar-lhe torna-se agradar alguém, agradá-lo, certamente por efeito de sinônimos como ‘contentar, satisfazer’, ‘alegrar, deleitar’, e obviamente prescinde de preposição com o traço de ‘acarinhar, mimar’, de um uso popular deste verbo”.

Em resumo, pode-se usar corretamente o verbo agradar como pronominal, intransitivo, transitivo direto ou transitivo indireto, todos devidamente dicionarizados:


Agradou-se da moça à primeira vista.

A festa não agradou, embora o anfitrião tivesse feito tudo para agradar os convidados.

A infraestrutura das praias agradará os/aos turistas.

Nada agrada aos mais exigentes.

Adquire a qualquer custo algo que lhe agrade.

Quisemos agradá-lo, mas não houve jeito.


--- É possível a utilização do verbo conspirar no sentido de algo bom? O Aurélio estaria correto ao exemplificar que “tudo parecia conspirar para a sua felicidade”? É correto dizer que “os astros conspiram a nosso favor”? Não seria uma inversão de sentido? José Roberto, Rio de Janeiro/RJ


De “tramar, planejar ou concorrer para uma conspiração”, o verbo conspirar passou a designar também “concorrer para algum fim” ou, em outros termos, “tender ao mesmo objetivo”; enfim, “contribuir”. O que muda é a regência: a preposição contra sempre traduz um fator negativo: Ele conspira contra qualquer iniciativa, contra nossos ideais; as preposições para, em ou a podem ser usadas em qualquer situação: Conspira para sua felicidade / conspira a seu favor / conspira em prejudicar seus interesses / conspira para obter os melhores resultados.

Há estudiosos que asseveram não ser correto alterar o significado original para "a favor" porque, com base na derivação latina (do verbo spiro,as,avi,atum,are, precedido da preposição contra, significando "soprar contra", contra-inspirare, "conspirare"), isso configuraria um contrassenso. “Quem conspira sempre planeja ações contra alguém ou algo, jamais a favor, sendo forçada a significação de conspirar a favor”, diz um deles, e o Dicionário Houaiss corrobora esse fato ao não registrar as acepções positivas.
O fato é que Francisco Fernandes (Dicionário de Verbos e Regimes, 1958) consignava no verbete conspirar o sentido de “concorrer, tender (ao mesmo fim)”, e daí para “concorrer ou contribuir para uma coisa boa” foi um pulo! Em todo caso, recomendo que esta última acepção fique restrita à linguagem coloquial.

--- Gostaria que ou de que você...? Quando não se usa a preposição para atender à regência do verbo? Célia Cândido da Silva, Curitiba/PR


O verbo gostar, ninguém tem dúvida, pede a preposição deGosto de vocês. Gostaria de tomar água de coco. Entretanto, a sequência gostar de que permite deixar a preposição de fora, porque frases como Gostaria que você fosse pontual ou Ela gosta que a elogiem soam melhor do que Gostaria de que você fosse pontual ou Ela gosta de que a elogiem.


--- Tenho dúvida, quase certeza, de que estão erradas as expressões abaixo. Por favor julguem-nas: O São Paulo venceu ao Palmeiras. A bola passou por sobre o gol. André Luís, São Paulo/SP


Você tem razão no primeiro caso, pois o correto é “O São Paulo venceu o Palmeiras”.


No segundo, é preciso jogo de cintura. Em português (embora não tanto como no inglês), também se vê uma preposição regendo outra em certos casos de ênfase ou maior definição. A prep. por exprime, entre outras coisas, ideia de percurso, e quando esse percurso se dá sobre a trave, é possível deixar isso bem claro: a bola passou por sobre o gol. Outros exemplos de dupla preposição:


Passou por entre a ramagem.

Mergulham e desaparecem por sobre o imenso telheiro.

O terreno lhe foge de sob os cascos.

Passou por detrás do galpão.

Cumpre seus deveres para com a religião.


Maria Tereza de Queiroz Piacentini 

sábado, 19 de outubro de 2019

CONCORDÂNCIA VERBAL: Sujeito simples.



Ocorre quando o verbo se flexiona para concordar com seu sujeito.

Sujeito Simples

Regra Geral

O sujeito sendo simples, com ele concordará o verbo em número e pessoa. Veja os exemplos:
A orquestra      tocou      uma valsa longa.
3ª p. Singular    3ª p. Singular

Os pares  que  rodeavam a nós dançavam bem.
3ª p. Plural        3ª p. Plural

Casos Particulares

Há muitos casos em que o sujeito simples é constituído de formas que fazem o falante hesitar no momento de estabelecer a concordância com o verbo. Às vezes, a concordância puramente gramatical é contaminada pelo significado de expressões que nos transmitem noção de plural, apesar de terem forma de singular ou vice-versa. Por isso, convém analisar com cuidado os casos a seguir:

1) Quando o sujeito é formado por uma expressão partitiva (parte de, uma porção de, o grosso de, metade de, a maioria de, a maior parte de, grande parte de...) seguida de um substantivo ou pronome no plural, o verbo pode ficar no singular ou no plural.

Por Exemplo:
A maioria dos jornalistas aprovou / aprovaram a ideia.

Metade dos candidatos não apresentou / apresentaram nenhuma proposta interessante.

Esse mesmo procedimento pode se aplicar aos casos dos coletivos, quando especificados. 

Por Exemplo:
Um bando de vândalos destruiu / destruíram o monumento.

Obs.: nesses casos, o uso do verbo no singular enfatiza a unidade do conjunto; já a forma plural confere destaque aos elementos que formam esse conjunto.

Casos particulares II

2) Quando o sujeito é formado por expressão que indica quantidade aproximada (cerca de, mais de, menos de, perto de...) seguida de numeral e substantivo, o verbo concorda com o substantivo. Observe:
Cerca de mil pessoas participaram da manifestação.
Perto de quinhentos alunos compareceram à solenidade.
Mais de um atleta estabeleceu novo recorde nas últimas Olimpíadas.
Obs.: quando a expressão "mais de um" se associar a verbos que exprimem reciprocidade, o plural é obrigatório:
Por Exemplo:
Mais de um colega se ofenderam na tumultuada discussão de ontem. (ofenderam um ao outro).

3) Quando se trata de nomes que só existem no plural, a concordância deve ser feita levando-se em conta a ausência ou presença de artigo. Sem artigo, o verbo deve ficar no singular. Quando há artigo no plural, o verbo deve ficar o plural.
Exemplos:
Os Estados Unidos possuem grandes universidades.
Alagoas impressiona pela beleza das praias.
As Minas Gerais são inesquecíveis.
Minas Gerais produz queijo e poesia de primeira.
Os Sertões imortalizaram Euclides da Cunha.

4) Quando o sujeito é um pronome interrogativo ou indefinido plural (quais, quantos, alguns, poucos, muitos, quaisquer, vários) seguido por "de nós" ou "de vós", o verbo pode concordar com o primeiro pronome (na terceira pessoa do plural) ou com o pronome pessoal. Veja:

Quais de nós são / somos capazes?
Alguns de vós sabiam / sabíeis do caso?
Vários de nós propuseram / propusemos sugestões inovadoras.

Obs.: veja que a opção por uma ou outra forma indica a inclusão ou a exclusão do emissor. Quando alguém diz ou escreve "Alguns de nós sabíamos de tudo e nada fizemos", esta pessoa está se incluindo no grupo dos omissos. Isso não ocorre quando alguém diz ou escreve "Alguns de nós sabiam de tudo e nada fizeram.", frase que soa como uma denúncia.

Nos casos em que o interrogativo ou indefinido estiver no singular, o verbo ficará no singular.
Por Exemplo:
Qual de nós é capaz?
Algum de vós fez isso.

Casos particulares III

5) Quando o sujeito é formado por uma expressão que indica porcentagem seguida de substantivo, o verbo deve concordar com o substantivo.
Exemplos:

25% do orçamento do país deve destinar-se à Educação.

85% dos entrevistados não aprovam a administração do prefeito.

1% do eleitorado aceita a mudança.

1% dos alunos faltaram à prova.

Quando a expressão que indica porcentagem não é seguida de substantivo, o verbo deve concordar com o número. Veja:

25% querem a mudança.

1% conhece o assunto.

6) Quando o sujeito é o pronome relativo "que", a concordância em número e pessoa é feita com o antecedente do pronome.

Exemplos:
Fui eu que paguei a conta.

Fomos nós que pintamos o muro.

És tu que me fazes ver o sentido da vida.

Ainda existem mulheres que ficam vermelhas na presença de um homem.

7) Com a expressão "um dos que", embora alguns gramáticos considerem a concordância facultativa, a preferência é pelo uso verbo no plural, para concordar com a palavra que antecede o pronome relativo “que”.

Por Exemplo:
Ademir da Guia foi um dos jogadores que mais encantaram os poetas.

Se você é um dos que admiram o escritor, certamente lerá seu novo romance.

Atenção:
Na linguagem corrente, o que se ouve, efetivamente, são construções como:

"Ele foi um dos deputados que mais lutou para a aprovação da emenda".

Ao compararmos com um caso em que se use um adjetivo, temos:

"Ela é uma das alunas mais brilhante da sala."

Ao invertermos as frases, fica claro que o emprego das formas no plural está adequado:

"Das alunas mais brilhantes da sala, ela é uma."

"Dos deputados que mais lutaram pela aprovação da emenda, ele é um".


Casos particulares IV:

8) Quando o sujeito é o pronome relativo "quem", pode-se utilizar o verbo na terceira pessoa do singular ou em concordância com o antecedente do pronome.

Exemplos:
Fui eu quem pagou a conta.

Fui eu quem paguei a conta.

Fomos nós quem pintou o muro.

 Fomos nós quem pintamos o muro.

9) Quando o sujeito é um pronome de tratamento, o verbo fica na 3ª pessoa do singular ou plural.

Por Exemplo:
Vossa Excelência é diabético?

Vossas Excelências vão renunciar?

10) A concordância dos verbos bater, dar e soar se dá de acordo com o numeral.

Por Exemplo:

Deu uma hora no relógio da sala.

Deram cinco horas no relógio da sala.

Obs.: caso o sujeito da oração seja a palavra relógio, sino, torre, etc., o verbo concordará com esse sujeito. Por exemplo:

O tradicional relógio da praça matriz dá nove horas.

11) Verbos Impessoais: por não se referirem a nenhum sujeito, são usados sempre na 3ª pessoa do singular. São verbos impessoais:

Haver no sentido de existir.

Fazer indicando tempo.

Aqueles que indicam fenômenos da natureza.

Exemplos:
Havia muitas garotas na festa.

Faz dois meses que não vejo meu pai.

Chovia ontem à tarde.



CONCORDÂNCIA VERBAL e NOMINAL: Diferença

Concordância verbal e nominal é a parte da gramática que estuda a conformidade estabelecida entre cada componente da oração.
Enquanto a concordância verbal se ocupa da relação entre sujeito e verbo, a concordância nominal se ocupa da relação entre as classes de palavras:
concordância verbal = sujeito e verbo

concordância nominal = classes de palavras
O #BCCCV esclarece:


Exemplo: Nós estudaremos regras e exemplos complicados juntos.
Na oração acima, temos esses dois tipos de concordância:
Ao concordar o sujeito (nós) com o verbo (estudaremos), estamos diante de um caso de concordância verbal.
Já, quando os substantivos (regras e exemplos) concordam com o adjetivo (complicados), estamos diante de um caso de concordância nominal.
Conheça as principais regras em cada caso:

Concordância Verbal

1. Sujeito composto antes do verbo

Quando o sujeito é composto e vem antes do verbo, esse verbo deve estar sempre no plural.
Exemplo:
Maria e José conversaram até de madrugada.

2. Sujeito composto depois do verbo

Quando o sujeito composto vem depois do verbo, o verbo tanto pode ficar no plural como pode concordar com o sujeito mais próximo.
Exemplos:
Discursaram diretor e professores.

Discursou diretor e professores.

3. Sujeito formado por pessoas gramaticais diferentes

Quando o sujeito é composto, mas as pessoas gramaticais são diferentes, o verbo também deve ficar no plural. No entanto, ele concordará com a pessoa que, a nível gramatical, tem prioridade.
Isso quer dizer que 1.ª pessoa (eu, nós) tem prioridade em relação à 2.ª (tu, vós) e a 2.ª tem prioridade em relação à 3.ª (ele, eles).
Exemplos:
Nós, vós e eles vamos à festa.

Tu e ele falais outra língua?

  • Concordância Nominal

1. Adjetivos e um substantivo

Quando há mais do que um adjetivo para um substantivo, os adjetivos devem concordar em gênero e número com o substantivo.
Exemplo
Adorava comida salgada e gordurosa.

2. Substantivos e um adjetivo

No caso inverso, ou seja, quando há mais do que um substantivo e apenas um adjetivo, há duas formas de concordar:
2.1. Quando o adjetivo vem antes dos substantivos, o adjetivo deve concordar com o substantivo mais próximo.
Exemplo:
Linda filha e bebê.
2.2. Quando o adjetivo vem depois dos substantivos, o adjetivo deve concordar com o substantivo mais próximo ou com todos os substantivos.
Exemplos:
Pronúncia e vocabulário perfeito.

Vocabulário e pronúncia perfeita.

Pronúncia e vocabulário perfeitos.

Vocabulário e pronúncia perfeitos.

QUESTÕES DE CONCURSOS FORA DA REALIDADE:

Ao passar os olhos sobre os testes de alguns concursos e “simulados”, concluo que ainda há pouco a comemorar, pois alguns deles põem o candidato contra a parede com frases tão fora da realidade quanto o título desta coluna.

É louvável que a primeira eliminatória dos concursos públicos inclua questões de português. Seu mérito é justamente este: levar o pessoal a “correr atrás do prejuízo”. E haja apostilas e matrículas em cursos preparatórios!
O #BCCCV esclarece:



Alguns concursos partem direto para a redação, ótimo (aí o problema pode ser a correção delas, mas nada é perfeito...). Outros começam com provas objetivas, que nem sempre avaliam o conhecimento do candidato; isso depende muito da maneira como se fazem as questões e que tipo de questão é feita. Pode se beneficiar mais aquele que conhece os macetes de marcar cruzinhas, eliminar isso e aquilo, fazer somas, do que o candidato que redige bem, tem bom vocabulário, mas desconhece a “psicologia” da prova objetiva ou a tendência (para não dizer o humor) de quem a elaborou.


Espera-se de um procurador ou juiz que conheça a língua nativa de modo a redigir com coerência, clareza e correção seus pareceres, sentenças, petições, acórdãos. E é importantíssimo que ele saiba consultar dicionários e livros para solucionar dúvidas. Mas na hora do “vamos ver”, esse pobre advogado tem que saber, sob pena de reprovação:


- que o plural de puxa-puxa, pele-vermelha e puro-sangue é puxa(s)-puxas (puxa vida!), peles-vermelhas e puros-sangues;

- que são todas frases “ERRADAS”: Estados Unidos atacam Afeganistão. Fiquem alertas! João namora com Maria. Não me simpatizei com ela. Aqui se come, se bebe e se é feliz. Sua atitude implicará em demissão (1). Deu nove horas no relógio da praça (2). Esqueci de seu nome;

- que na língua nativa as frases boas (“assinale a frase CORRETA”) são escritas assim: Fi-las com a dedicação de um monge. Nunca me esqueceram seus olhares marotos (3). Meus projetos, nunca lhos mostrarei. A elas, não lho entregarei (4). O senador favorável à nossa causa assiste em Brasília. Entrada é proibido (5). Dá-lo-ia, mandá-la-á...


Comentários:
(1) Temos que parar de ser implicantes com “implicar em”; felizmente bons vestibulares já não estão insistindo na regência deste verbo.


(2) Quanta história! Já em 1654, D. Francisco Manuel de Melo escreveu em “Relógios Falantes”: “Não dera ainda nove horas, que é taxa de todo cativeiro do matrimônio”.


(3) Que frase marota: os olhares não me esqueceram ou eu é que não esqueço tais olhares?? Com essa estrutura frasal, fiquei confusa! E ainda descubro que o filme “Esqueceram de mim” deveria se chamar “Esqueceram-se de mim”. Ora, se Érico Verissimo, Mário de Andrade, Jorge Amado, José Lins do Rego e Clarice Lispector usaram “esquecer de” (sem o pronome oblíquo), por que nós, simples mortais, não temos esse direito?


(4) Afinal, o concurso é para trabalhar no Brasil ou em Portugal? Pois lá é que se usam os pronomes mo, ma, lho, lha...


(5) Qualquer pessoa normal que quiser afixar placa de interdição saberá escrever: PROIBIDO ENTRAR ou Entrada proibida ou É PROIBIDA A ENTRADA ou até mesmo Proibido entrada, mas nunca usará a opção sugerida no teste.


Gosto de gramática, prezo sua utilidade e defendo seu ensino. Porém há um evidente exagero nisso tudo. Não se pode ficar cobrando regras quando são inócuas ou polêmicas. Essa coisinha de exceção e de “pegadinha” só faz afastar as pessoas do estudo de português, criando nelas ojeriza ao idioma.


Até pode ser interessante saber que “informar inflamável apresentam prefixos de mesmo significado” (in, “para dentro”) e que “amarelar, infelizmente apedrejar não são formadas pelo mesmo processo”, pois na 1ª temos derivação sufixal, na 2ª derivação prefixal e sufixal e na 3ª uma parassíntese, mas se o candidato não tiver memória para decorar tudo isso, danou-se!


* Embora esse artigo tenha sido escrito originalmente em 2002 – e de lá para cá felizmente muita coisa melhorou –, ele permanece publicado pois ainda há algumas instituições que cometem alguns dos exageros aqui criticados.


Maria Tereza de Queiroz Piacentini

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

ORTOGRAFIA DIVERSAS:

ADREDE, A PAR OU AO PAR, CHAMPANHE ou CHAMPANHA, ISLAMITA

A palavra adrede significa “de propósito, para esse fim, intencionalmente, de caso pensado” e, sendo advérbio, não carece da terminação “-mente” que às vezes erroneamente lhe dão (p.ex. *ideia adredemente concebida). Em geral se usa o termo junto de um particípio:

O #BCCCV esclarece:


Tratou de implementar uma ideia adrede concebida com o intuito de desfalcar o patrimônio alheio.

A primeira autoridade baixou a regulamentação para o preenchimento das vagas, enquanto a segunda ficou encarregada de sua execução material, inclusive com responsabilidades adrede definidas.


Falar ou escrever “adredemente” é o mesmo que dizer “de repentemente”, como já ouvi. Está no mesmo nível do linguajar divertidíssimo de Odorico Paraguaçu, personagem da novela  O Bem-Amado, que abusava dos “entretantos” e “finalmentes”.


> A par, ao par

Não precisam me dar conhecimento dos fatos, já estou a par de tudo.


A par, além de “ciente, ao corrente de”, quer dizer “lado a lado, junto, ao mesmo tempo”, igual a: de par em par; (a) par e par; de par:


Inspiração e suor caminham a par.

Os feixes de trigo foram colocados a par.


Ao par é expressão usada coloquialmente como sinônimo de a par, mas de preferência deve ser reservada para significar, na área financeiro-comercial, que estão em equivalência a cotação de um título de crédito e o seu valor nominal:
 

Com o novo pacote econômico o câmbio ficou ao par.

> Champanhe

Como nem todos podem brindar com o autêntico champanhe – feito na região de Champagne, no norte da França –, o jeito é investir em produtos mais democráticos: na Espanha festeja-se com cavas, na Itália com prossecos e no Brasil com os espumantes, que são os melhores vinhos produzidos em nosso país.


Por se tratar de um tipo de vinho, é natural que se considere masculina a palavra champanhe ou champanha: “Gostamos deste (vinho) champanhe”. Então, por que ela é tão usada no feminino? Por que aí se pressupõe um antecedente feminino: “Vamos estourar uma (garrafa de) champanhe”. Dicionários mais recentes já registram a dupla possibilidade de uso.


O mesmo acontece com alface: sabe-se que o substantivo é feminino (a alface estava deliciosa), mas se pode usar o masculino quando se trata do pé: “Comprei um (pé de) alface a vinte centavos”.


> Muçulmano, maometano, islamita

Os pais de numerosos recém-nascidos muçulmanos da região colocaram em seus filhos o nome do inimigo público nº 1 dos EUA.

Os maometanos, naquela hora, trocaram suas atividades pela devoção.

A província de Yala, no sul da Tailândia, tem grande número de islamitas.


Os três termos podem ser usados alternativamente para designar os devotos e seguidores de Maomé (570-632), profeta de Alá que fundou o maometismo, religião cujos ensinamentos estão contidos no Alcorão. A origem dos nomes é que é diversa: maometano se origina de “Maomé”; muçulmano vem do árabe muslim e tem o sentido de “submetido a Deus, fiel à religião”; islamita se reporta a “islã”, nome que se dá ao mundo muçulmano, ao conjunto dos povos que professam o islamismo, que é outra denominação da religião maometana.


Maria Tereza de Queiroz Piacentini